Inteligência Artificial no Marketing: Entre a Promessa e a Realidade

Conferência unConference em Ponta Delgada

Um Olhar Crítico a Partir da unConference

Pontos-chave: Inteligência Artificial no Marketing

  • A maioria das empresas já usa IA, mas com resultados mediocres

  • O problema não está na tecnologia, mas na falta de estratégia e contexto

  • A IA amplifica problemas estruturais, não os resolve

  • A qualidade dos dados é crítica para decisões eficazes

  • A IA democratiza a produção de conteúdo, mas reduz diferenciação

  • A vantagem competitiva está na personalização baseada em dados próprios

  • O papel do marketer está a evoluir de execução para decisão

  • A relevância torna-se o principal factor de diferenciação

  • Contextos locais (como os Açores) podem criar vantagem estratégica

  • Usar IA melhor que os outros é mais importante do que simplesmente usar

Organizar uma conferência sobre Inteligência Artificial nos Açores pode, à primeira vista, parecer periférico. Afinal, a IA é desenvolvida nos grandes centros.

Mas é precisamente por isso que faz sentido fazê-lo.

A unConference, organizada pela unOffice e pela Livin’it Azores, entidades fundadas por Monika Kaselyte e Paulo Mendes, decorreu em Ponta Delgada, num contexto que está longe de ser irrelevante e que, na verdade, ajuda a enquadrar melhor muitas das questões críticas associadas à Inteligência Artificial.

Estas entidades nasceram nas ilhas, mas sempre com uma visão global. Essa dualidade, conhecimento do território e leitura crítica do “centro”, permite levantar uma questão essencial: a Inteligência Artificial foi construída com base em dados dos grandes centros, deixando muitas realidades locais sub-representadas ou, em alguns casos, simplesmente ausentes.

Isto não é apenas um detalhe técnico. É, sobretudo, um problema de marketing.

O marketing depende de contexto, cultura, linguagem e comportamento. Quando estes elementos não estão reflectidos nos dados que alimentam os sistemas de IA, as consequências tornam-se evidentes: decisões desalinhadas, mensagens irrelevantes e experiências que não ressoam com o público.

Reportagem RTP Açores sobre a unConference

Reportagem RTP Açores sobre a unConference (início aos 12 minutos)

Mas há um outro lado, menos discutido.

Se os grandes centros dominam os dados generalistas, então existe um espaço significativo para quem conhece melhor os contextos específicos. Isto abre uma oportunidade estratégica: criar vantagem competitiva através da personalização baseada em dados próprios, mais próximos da realidade do cliente.

Os Açores, enquanto território de fronteira, simbolizam precisamente isso. A necessidade de um marketing mais contextual, mais humano e mais relevante.

Foi neste enquadramento que a AMD participou na unConference, trazendo para o debate uma visão clara: o problema da IA no marketing não é tecnológico. É estrutural.

O que Ninguém Está a Dizer Sobre IA no Marketing

Existe hoje uma narrativa dominante em torno da Inteligência Artificial: é inevitável, poderosa e transformadora. Tudo isto é verdade. Mas está incompleto.

Na prática, o que se observa é que muitas empresas já estão a utilizar IA, mas os resultados continuam, em grande parte, aquém das expectativas. A maioria das implementações não gera uma vantagem real. Gera apenas mais do mesmo — de forma mais rápida.

Tal como foi evidenciado na apresentação, o problema não está na tecnologia. Está na forma como é aplicada: falta de contexto, ausência de processos e, sobretudo, ausência de estratégia.

As empresas estão a tentar aplicar Inteligência Artificial sobre bases frágeis. E quando isso acontece, o resultado não é transformação. É amplificação de ineficiências.

Onde Está a Falhar a IA nas Empresas

Ao contrário do que muitas organizações assumem, a IA não resolve problemas estruturais. Amplifica-os. Os padrões de falha são relativamente consistentes e repetem-se em diferentes sectores:

  • Dependência excessiva de ferramentas

  • Conteúdo genérico que não converte

  • Dados de baixa qualidade que geram decisões erradas

  • Automação sem estratégia

  • Equipas que deixam de pensar

Entre estes pontos, há um que merece particular atenção: a qualidade dos dados. Dados maus não são apenas um problema técnico. São um reflexo directo de um problema mais profundo: a falta de conhecimento real sobre o cliente.

E isto liga directamente ao contexto da conferência. Se os dados utilizados para treinar sistemas e tomar decisões são maioritariamente provenientes de outros contextos, então muitas empresas estão, na prática, a operar com uma leitura distorcida do seu próprio mercado.

Fotografia dos Organizadores e Oradores da unConference em Ponta Delgada

Organizadores e Oradores da unConference.

Da esquerda para a direita: Paulo Mendes (organização, unOffice e Livin’it Azores), Ana Barros (Martech Digital), André Novais de Paula (AMD), Monika Kaselyte (organização, unOffice e Livin’it Azores), Vadini Ferreira (Rise AI & ICest), Hélio Varela (Unitel).

A IA Democratiza a Mediocridade e Também a Oportunidade

A Inteligência Artificial tornou acessível algo que antes era limitado: a capacidade de produzir conteúdo em escala. Hoje, qualquer empresa consegue escrever artigos, criar posts ou desenvolver campanhas em poucos minutos. O problema é que todas conseguem fazer exactamente o mesmo.

O resultado é previsível: aumento de volume, redução de diferenciação.

A própria apresentação destacou este risco, sublinhando que produzir mais rápido não significa fazer melhor marketing e que existe uma tendência crescente para conteúdos genéricos e perda de autenticidade.

No entanto, há um aspecto adicional que merece reflexão: a mediocridade não é uniforme. É contextual.

Conteúdos genéricos têm um impacto ainda mais reduzido em contextos específicos. Mensagens padronizadas ignoram nuances culturais, comportamentais e linguísticas. E campanhas pensadas para um “público médio” acabam por não ser relevantes para ninguém em particular.

É aqui que surge a verdadeira oportunidade. Quem domina o contexto e não apenas a tecnologia, tem condições para utilizar a IA de forma mais eficaz.

IA não Executa Marketing. Reconfigura Decisões

Um dos equívocos mais comuns é tratar a IA como uma ferramenta de execução. Na realidade, o seu maior impacto está ao nível da decisão.

A Inteligência Artificial está a transformar a forma como o marketing é pensado: o planeamento deixa de ser estático e passa a ser contínuo; a intuição é complementada ou substituída, por dados; e as personas tradicionais dão lugar a padrões comportamentais reais.

Mas há um ponto crítico: a qualidade dessas decisões depende directamente da qualidade e relevância dos dados utilizados. Sem dados representativos, a decisão pode ser tecnicamente correcta, mas estrategicamente errada.

Do Conteúdo Massificado à Relevância Contextual

Um dos exemplos apresentados ilustra bem esta mudança. Uma empresa deixou de focar a sua estratégia na produção de volume e passou a utilizar IA para compreender o que realmente funciona. Ao analisar padrões de engagement e conversão, conseguiu adaptar conteúdos a diferentes segmentos, criando variações ajustadas ao contexto de cada público.

O resultado não foi mais conteúdo. Foi mais relevância. A IA permitiu gerar diferentes versões do mesmo conteúdo, técnicas, executivas, curtas ou longas, alinhadas com o perfil de quem as consome.

Este ponto é fundamental. A tecnologia não cria relevância. A tecnologia ajuda a identificar onde ela já existe e como pode ser activada.

Segmentação: De Modelos Teóricos a Comportamento Real

Outro exemplo relevante foi o da segmentação. Uma abordagem tradicional baseava-se em personas definidas à partida. Com a utilização de IA, foi possível identificar segmentos reais com base em comportamento. Padrões de consumo de conteúdo, tempo de decisão e sensibilidade a diferentes propostas de valor.

O impacto não foi apenas táctico. Foi estratégico. As empresas deixaram de ajustar apenas mensagens. Passaram a ajustar a forma como abordam o mercado.

No entanto, há uma condição essencial: estes padrões só são úteis se os dados reflectirem a realidade do público. Caso contrário, a segmentação continua a existir, mas deixa de ser relevante.

CRM e Dados: O Verdadeiro Campo de Batalha

Se há área onde a diferença se vai acentuar, é na gestão de dados. A IA depende de dados. Mas não de quaisquer dados. Depende de dados próprios, estruturados e contextualizados. Sem essa base, a Inteligência Artificial pode funcionar do ponto de vista técnico, mas não gera valor para o negócio.

O exemplo de lead scoring apresentado demonstra isso. Ao analisar interacções, histórico e padrões de conversão, a IA permite priorizar leads com maior probabilidade de fechar negócio, tornando a actuação comercial mais eficiente.

Mas este tipo de resultado só é possível quando existe uma base sólida de dados. Sem dados relevantes, não há inteligência. Há apenas automatização.

O Novo Papel do Marketer

Neste contexto, o papel do marketer está a mudar de forma significativa. A execução torna-se cada vez mais automatizada, enquanto ganham importância competências como interpretação, decisão e validação.

O novo papel do Marketer num mundo de IA

O novo papel do Marketer num mundo dominado por Inteligência Artificial.

Mas há uma nova responsabilidade que emerge com clareza: garantir que os dados utilizados representam a realidade. Porque, sem essa base, a IA pode acelerar decisões, mas não garante que sejam as decisões certas.

O Verdadeiro Desafio é Criar Relevância num Mundo Automatizado

A Inteligência Artificial está a tornar o marketing mais eficiente, mais rápido e mais escalável. Mas não o torna automaticamente melhor.

A diferença continuará a estar na capacidade de criar relevância. E relevância não se constrói com modelos genéricos. Constrói-se com conhecimento profundo do cliente, compreensão do contexto e capacidade de adaptação.

Inteligência Artificial no Marketing: Entre a Promessa e a Realidade

Num contexto onde os dados são o principal combustível da Inteligência Artificial, torna-se inevitável abordar três dimensões que não podem ser tratadas como acessórias: ética, privacidade e confiança.

A capacidade de personalizar comunicação e tomar decisões automatizadas depende directamente da forma como os dados são recolhidos, tratados e utilizados. Sem transparência, sem respeito pelas escolhas dos consumidores e sem um enquadramento ético claro, a vantagem tecnológica transforma-se rapidamente num risco reputacional.

No futuro próximo, não serão apenas as marcas mais eficientes a destacar-se, mas sim aquelas que conseguirem equilibrar performance com responsabilidade. Porque, num ecossistema cada vez mais automatizado, a confiança não será apenas um diferencial. Será um requisito.

Conclusão: da Periferia para o Centro

A realização da unConference nos Açores não é um detalhe logístico. É um sinal.

Um sinal de que o futuro do marketing não será definido apenas nos grandes centros, mas também por quem conhece melhor os seus mercados, domina os seus dados e compreende verdadeiramente os seus clientes.

A Inteligência Artificial não elimina a diferença entre empresas. Amplifica-a. Nesse cenário, a vantagem não estará em usar IA. Estará em usá-la melhor.

E, muitas vezes, isso começa mais perto do cliente e mais longe do centro do que se imagina.

FAQ

  • A maioria das falhas resulta da ausência de estratégia, dados de qualidade e contexto de negócio. A IA amplifica problemas existentes em vez de os resolver.

  • Não. A IA reduz tarefas de execução, mas aumenta a necessidade de interpretação, decisão e validação humana.

  • Começando por uma área específica, com objectivos claros, dados estruturados e medição contínua de resultados.

  • Porque utiliza padrões existentes e dados generalistas. Sem contexto e diferenciação, o output tende a ser semelhante entre empresas.

  • Os dados são a base de qualquer sistema de IA. Dados incompletos ou incorrectos levam a decisões erradas, mesmo com tecnologia avançada.

  • Não. Diferenças culturais, linguísticas e comportamentais impactam a eficácia da IA, especialmente em contextos menos representados nos dados.

  • Através da utilização de dados próprios, conhecimento profundo do cliente e capacidade de personalização relevante.

André Novais de Paula - Presidente AMD

“Formado em Marketing e Publicidade pelo IADE, com especialização em Marketing, é actualmente Presidente da AMD — Associação Portuguesa de Marketing Directo e Digital e CEO da Directimedia, uma agência focada em Marketing Relacional e Comunicação com Dados Variáveis (VDC), combinando canais físicos e digitais em campanhas personalizadas e orientadas por resultados.

Ao longo da sua carreira, tem-se destacado na criação e liderança de estratégias de marketing directo, digital e cross-media, com uma abordagem centrada na personalização, automação e integração de dados em múltiplos canais, incluindo Print, Email, SMS e Web.

É co-autor do livro “Marketing Digital para Empresas”, e tem uma actividade docente intensa e reconhecida, leccionando em Mestrados, MBAs e Pós-Graduações em várias instituições de ensino superior e centros de formação profissional. Já deu formação a mais de 15.000 pessoas e é frequentemente convidado como orador em conferências, webinars e eventos do sector.

Marca presença activa nas redes sociais, ientre elas LinkedIn, Facebook, Instagram, X e YouTube, onde partilha reflexões, tendências e boas práticas nas áreas do Marketing, Estratégia, Inovação e Liderança.”

https://www.linkedin.com/in/andrenpaula/
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